CrieiTiveComo : culturafisl8

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A cultura no Fisl 8.0


ou, com um empurrãozinho de r$140 mil, Criei Tive Como..

Presenciamos no oitavo Fisl, o Fórum Internacional do Software Livre, um alinhamento deste com o pensamento autoritário ocidental, uma apoderação da técnica para desfigurar a cultura, identificando-a à lógica da indústria, ou seja, mais uma apropriação de conceitos, pessoas e espaços, num lugar onde a própria liberdade acabou sendo manipulada.

Assim como Simondon, muitos detectam "no mundo moderno, um impasse perigoso, em que a esfera técnica e a cultura são concebidas como formas de atuação humana claramente distintas e opostas." Neste sentido, há dois anos atrás, simplesmente não havia cultura no Fisl. O coletivo Estúdio Livre organizou então uma oficina no campo do tuca e teve um estande improvisado. Neste ano, 2007, ocorreu o contrário, um claro LATIFÚNDIO CULTURAL, com todo o tema "cultura" sendo articulado por uma só organizaçã o, o festival Criei Tive Como. Propostas como Lab Livre, uma experiência parecida com a do Fórum Social Mundial, acabaram sendo deixadas de lado por "falta de dinheiro", assim como propostas de mesas simplesmente vetadas. A justificativa: ali não há espaço para crítica.

Mas então qual cultura o fisl optou por evidenciar?


espaço do festival CTC


espaço do Estúdio Livre

Há muito tempo inciativas de produção multimídia com software livre se articulam por todo o brasil - ESEEI desde 1999, FSM de 2002 parceria Centro de Mídia Independente e Rádio Muda, em um Lab montado em uma estrutura de lama do acampamento da juventude , Autolabs/sp 2003 e 2004, Oficina de Conhecimentos Livres /nacional 2005, 2006 e 2007). Coletivos descentralizados de todo o brasil co-laboram há pelo menos 5 anos para estimular a produção independente, a arte a a cultura por meio do software livre e da pedagogia da autonomia. Por vezes co-laborando junto a governo em iniciativas incubadas (e apropriadas) pelos burocratas, como Pontos de Cultura, e em festivais internacionais de arte, mídia, tecnologia, comunicação e cultura, como Mídia Tática Brasil, Digitofagia, Submidialogia, Find:E:tático, Cibersalão , Diálogos na Casinha, etc (todos entre 2004 e 2007), entre outros, já há algum tempo vêm-se confundindo, nã o coincidentemente, o trabalho de ativistas de mídia com os ciclos de reprodução que compactuam com o tempo imposto pelas regras do mercado capitalista, e, neste país contraditório, abarcado também pelo governo.

É assim que o nome cultura livre foi registrado por uma fundação, nada menos do que a Getúlio Vargas, templo neo-liberal da propriedade intelectual. Comparsando-se, o festival de r$140 mil reais apropriou-se do nome Criei Tive Como, versão abrasileirada da licença estadunidense, criado por um ativista e registrado sem seu conhecimento para faturar em cima do conceito de liberdade. Fisl e CTC assim alinham-se, estabelecendo uma fissura de conceitos que é evidenciado pela contradição que carrega:

* a cultura da individualidade. através de convite a pessoas e não aos grupos já estabelecidos que trabalham com cultura e software livre, todos acessíveis por listas públicas, causando a des-mobilização destes grupos para o evento.

* escolha de trabalhos que usam software proprietário (FILE na primeira edição e os artistas do OVERMUNDO na segunda edição, também não coincidentemente outro projeto apoiado pela Petrobrás).

* manipulação do tema cultura através do veto a outras propostas enviadas.

* elitização das apresentações musicais, testemunhadas por um vazio teatro do sesi enquanto desesperadamente ocorria a distribuição de convites ao evento, em vão. enquanto sentia-se o cheiro de ganja oriundo da festa privê no camarim, no auditório ninguém podia beber, aliás nem lá fora, com a cerveja a r$4 reais.

* o próprio nome do festival foi roubado, o autor sendo literalmente enganado pois havia deixado usar o nome somente para a primeira edição do evento, não sendo informado que este seria registrado, e não em licença creative commons é claro, mas sob as leis de direito autoral (pirataria?).

* apropriação dos conceitos de rádio e tv livre, que definitivamente não se concretiza em um estúdio fechado com pessoas e temas previamente escolhidos e com apoio institucional, como ocorreu ali.

A cultura do oitavo fisl foi portanto a cultura da sociedade industrial e da expansão do mercado. A cultura do roubo, da censura e da apropriação de conceitos muito caros às pessoas presentes, à sociedade civil que ali não só não era representada, como pelo contrário, foi visivelmente afastada da real e ativa cultura do software livre. A cultura não esteve ali presente como a intervenção da técnica com o meio, mas como farsa da própria técnica capitalista que se apropria do meio para torná-lo produto, consumí-lo, vendê-lo, des-conceituá-lo. Afinal, todos sabemos que não há cultura sem liberdade, assim como não há liberdade sem igualdade e sem diálogo.

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